O Carnaval de Pernambuco agora é "business"
Luiz Maia
O governo de Pernambuco e a Prefeitura do Recife inventaram um tal de carnaval de ´Multicultural` como se o referido título não servisse apenas de pretexto para trazerem artistas de fora. O bom senso nos diz que a riqueza que há na diversidade cultural existente em nosso carnaval por si só já o torna diferente e belo. Houve um tempo em que o carnaval do Recife chegou a ser considerado o melhor do país, com destaque para os tradicionais artistas locais e não para os que veem de fora, contratados por elevados cachês. Época de ouro na qual a realidade dava vez à fantasia, ao lúdico e às brincadeiras simples sem exigir dinheiro, mas a criatividade de cada folião.
Atualmente resolveram transformar nossa festa num grande balcão de negócios, onde existe de tudo menos a alegria espontânea de antigos carnavais. Acabaram com o corso, um desfile de automóveis sem capotas, repletos de foliões que brincavam jogando confetes e serpentinas, deixando o cheiro gostoso do lança perfume no ar. Já não vemos as troças engraçadas que percorriam ruas e avenidas, ´las ursas`, Maracatus, Burrinhas, Caboclinhos, Bumbas-meu-boi e outras manifestações realmente populares. Hoje, alguns desses clubes e troças, que faziam parte da riquíssima cultura carnavalesca, já pertencem ao passado e é parte de nossas lembranças. Mais que uma festa, o carnaval recifense era um relevante acontecimento social. Diferente dos tempos atuais, em que o ´carnaval participativo` deu vez à ´Indústria de Momo`, lamentamos o afastamento gradual de inúmeras famílias de suas ruas e avenidas.
O Galo da Madrugada é o maior exemplo da ´baianização` pela qual passa nosso ritmo maior, sua excelência o Frevo, uma das maiores tradições de nossa Cultura. O ex-Bloco de Máscaras há muito que virou um monstrengo, um amontoado de gente perdida numa multidão sem a menor graça, distante da beleza do carnaval, mas diante dos trios elétricos que descaracterizam e ofuscam o saudoso bloco máscaras em que famílias inteiras brincavam e se deliciavam ao som de belas marchinhas.
Os artistas da terra aos poucos vão sendo preteridos por ´celebridades` de outros estados, mesmo sendo meros produtos midiáticos, considerados ´estrelas fugazes`. Com um celeiro inesgotável de compositores, cantores, ritmos e expressões autênticas da nossa cultura, creio que não precisaríamos de nomes de fora para encarecer e descaracterizar nossa festa. Como se isso não bastasse, até o critério para eleger o Rei e a Rainha do Carnaval pernambucano mudou: o candidato a Rei do carnaval agora não pode ser mais gordinho, tem de ser ´sarado` e frequentar academia de musculação. Infelizmente o burgomestre rendeu-se às evidências de um novo tempo que destrói a beleza de uma festa que já foi importante quando havia a efetiva e espontânea participação popular, descompromissada com certos critérios que seduzem autoridades e desconstroem todo um trabalho já feito.
Nenhum comentário:
Postar um comentário